O meu Oliveira favorito

E porque estive anos sem ver este filme, até que o encontrei no youtube.

A Caça (1964), retrata um dia,  como tantos outros, na vida de dois jovens amigos duma aldeia nortenha, a sensação de um certo énnui é sentido, já que eles deambulam pela rua até ao momento em que decidem ir à caça, mesmo sem possuírem uma arma. É neste contexto rural, de inocência juvenil que se desenvolve uma tragédia simbólica. Como simbólico é, aliás, todo o filme. Sem o parecer, porque assenta numa base de ingenuidade por parte dos protagonistas, é estabelecida uma reflexão sobre a violência e a crueldade que faz lembrar as fábulas que povoam o imaginário infantil.

A própria música do genérico transporta-nos para uma irrealidade, como uma entrada para um mundo de fantasia, para um onirismo que não é sinónimo de sonho, mas de um pesadelo humanista. Não só a banda sonora aponta nesse sentido, mas também a presença dos animais . Com esta característica fabulatória o filme incorpora o ambiente onírico num certo humor negro, transformando a possível tragédia da vida numa tragicomédia do absurdo. Um ambiente de terror (eventualmente real, o rapaz afogado na lama não será a metáfora de uma sociedade ditatorial que abafa as pessoas?) e fantasia (pelo simbolismo) sem neles se perder, pois há sempre um retorno ao lado real das personagens e situações, mantendo uma relação inseparável com a matéria da realidade.

O acto de caçar não se limita á esfera do racional e/ou do bestiário. Ela é perpetuada de forma consciente (nos homens caçadores) e inconsciente, nas atitudes banais do quotidiano, afirmando-se como uma característica profundamente humana. A relação entre os amigos é-nos introduzida como uma brincadeira, um jogo de violência característica do imaginário da construção de uma identidade, principalmente masculinas. É “encenada” uma “caça” ao amigo que se esconde para apanhar o outro, seguida de uma luta entre ambos: como um percurso iniciático de dois jovens que começam a abandonar a infância para entrarem numa outra fase, a adulta. Há um ritualismo inerente, como que iniciático, num universo maioritariamente masculino (ao contrário do que acontece com a filmografia posterior em que é maioritariamente feminino).

A importância da arquitectura, das janelas, dos muros, portões, das varandas, dos prédios meio destruídos: violentados, já em decomposição, quase cadáveres como muitas das personagens dos seus filmes.E a imagem do cadáver torna-se real através, novamente, do bestiário. Por ironia, o pai trabalha num matadouro e protagoniza o esquartejamento da carne, dos cadáveres bovinos. Os tons fortes e a visão do mexer e remover as entranhas transformam um acto quotidiano numa bizarria, é o confronto com o grotesco que se vive diariamente.

E aqui lembro-me de Virgílio Ferreira e do seu homem que é um ser para a morte, e do universo de violência e crueldade, um campo semântico de caça em tensão com um ‘background’ telúrico, quase poético do campo e do rio. E lembra-me, também, o teatro de Antonin Artaud, mais concretamente com a sua teorização na obra O Teatro e o Seu Duplo. Artaud e o seu “teatro da crueldade” versam sobre a tragédia da condição humana, defendem um teatro primitivo, que desvaloriza a componente literária da acção dramática, uma vez que consideram a ruptura comunicativa como a verdadeira tragédia do teatro, advogando um teatro “a meio caminho entre o gesto e o pensamento”[1]. Em A Caça a mise-en-scéne, não advém duma concepção literária, como acontece com outras obras de Oliveira, e valoriza esse mesmo primitivismo e apriorismo fatalista.

Manoel de Oliveira, pela hábil articulação da imagem com a palavra, mormente no final do filme, dá-nos a experiência cruel da ironia grotesca que a realidade humana pode assumir, e da potencialidade da arte cinematográfica, que tudo permite.No final, os movimentos de câmara elípticos reflectem a sensação de alienação, o turbilhão do abismo, a angústia e o desespero. A desorientação daqueles que desistiram do salvamento para começarem a lutar entre si. Os planos isolados, de olhar alucinado, a demência, a solidão dos amigos, o pássaro a saltitar livre em frente ao olhar desesperado de quem se está a afogar, e o grito final de socorro e desespero do maneta: “A mão, a mão…” são reveladores dessa ironia oliveiriana, quase perversa mas visceralmente humanista, são imagens e (poucas) palavras da humanidade, muitas vezes “amputadas” mas verdadeiras, com as suas bizarrias e absurdos.

Instala-se a expressão de uma inquietação modernista: a inconclusividade da narrativa, a fragmentação e a incerteza, em transição para uma radicalização pós-modernista: impossibilidade de comunicação.


[1] Artaud, Antonin; O Teatro e o seu Duplo

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